Carta aberta às pessoas que magoei porque Mi separei

Esta é uma carta aberta.
Leia e distribua à vontade. Ou não.
Estou escrevendo da parte da Michelle que percebeu que muitas relações que tinha dependiam diretamente da minha relação com o matrimônio. Ou, para ser mais específica, percebeu que tinha relações de amizade que dependiam da pessoa com quem eu partilhava o matrimônio. (Ou do meu estado civil, vai saber…)

Vou começar por essa pessoa.
Ela, por quem nutro grande respeito, carinho e admiração, a quem desejo todo amor e felicidade do mundo, a quem eu chamo pai dos meus dois pedaços mais-que-preciosos. Essa pessoa que é um pai não só de nome e sobrenome, mas de vida e de convívio, de cuidado presente, e que, por desventuras da jornada, não partilha mais a mesma jornada que eu.

Foi dessa pessoa que me separei.
Esse foi o fato.
Mas isso não interessa para o assunto da vez.

O assunto é falar de amigos-cunhados, amigas-cunhadas, amigas-vizinhos, amigos… amigos-de-pão-e-vinho, amigos-pastores, amigos-conselheiros, amigos-parceiros, amigos-primos, amigas-primas, amigos-irmãos… aquela infinidade que a gente costuma chamar (por algum engano conceitual) de amigos…
Esses são os amigos que pensei ter, mas não os tenho.
Quiçá os tive.

E esta é a carta que escrevi para vocês para dizer que abri mão de estar casada com uma pessoa específica, não de todas as pessoas da rede que nos envolvia. Isso não significa que abri mão da comunhão das pessoas que quero bem como quero a meus irmãos de sangue. Não quer dizer que eu esteja rejeitando os meus irmãos de sangue.

Isso não significa abrir mão de abraços amigos e mensagens carinhosas de uma quase-família que pensei que tinha… de uma quase-avó que cuidei como se fosse a minha.
Isso não significa que não quero chamar irmã aquela, que apesar da cor, sempre Mi chamava de Nêga. Porque com ela eu tinha uma ligação de alma que me tornava tão preta quanto ela, tão mulher quanto ela e tão sincera em querer tê-la como a irmã que estava sempre perto.
Não significa também que não queira chamar de sobrinhos seus filhos queridos. Tampouco quer dizer que eu não ame como irmão aquele que meus filhos chamam de tio.

Estar separada, queridos-todOs-e-todAs, que querem saber da Mimi, não me torna uma desertora de nem uma outra relação. Na realidade, não me torna desertora de relação nenhuma. Eu abri mão do matrimônio que tinha com uma pessoa.

Talvez seja isto: o fato de Mi assumir desertora do matrimônio.

A parte disso que me torna diferente diz respeito a uma pessoa querida.
Não diz respeito ao fato de ela não ser uma pessoa querida, pois ainda quero bem a ela.

A parte disso que diz respeito a todas as outras pessoas queridas é: nenhuma.
Não mudei meu sentimento de carinho e respeito quanto às demais pessoas. Não disse que não queria mais um abraço amigo, um ombro companheiro, um par de ouvidos…

Não disse aos primos e tios que estava assinando a carta de divórcio, mas infelizmente, muitos se separaram da Mimi.

Circunstâncias mudam, a vida muda, a roda gira, a roda-vida da vida não para de rodar. E desde então, muitas águas desse rio passaram pelo gota da Mimi.

Sim, tudo mudou, todos mudaram.

Mas a Mimi lamenta que nesse ciclo de evaporação e condensação poucas partículas de oxigênio tenham se mantido presas ao hidrogênio da Mimi.

Ou seria o contrário?
O mundo quântico não se explica por um racional muito claro, eu sei…
Eu sei que talvez esse tenha sido o melhor resultado de todas as possibilidades de todos os cenários, exatamente por ele ser o real, o factual, o concreto.

Sei de tudo isso pela veia da razão.
Nem por isso eu ignoro a veia da emoção.
E a emoção sente falta de ser a pessoa querida para tantas pessoas ainda queridas para Mimi.

Talvez a gente seja isso…
Poeira espacial
no vento
no tempo
e nas galáxias.

Era só
Isso.
Era tudo
Isso.

Foi.
Fomos.
Fui.

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Essa música explica muito disso:

Poeira ao vento (Kansas)

Eu fecho meus olhos

Apenas por um momento
E o momento se foi
Todos os meus sonhos
Passam diante dos meus olhos, em curiosidade
Poeira no vento
Tudo o que somos é poeira no vento

A mesma velha música
Apenas uma gota de água em um mar infinito
Tudo o que fazemos
Desaba sobre a Terra, embora nos recusemos a ver

Poeira no vento
Tudo o que somos é poeira no vento

Agora, não espere
Nada dura para sempre, apenas o céu e a terra
Isto escapa
E todo o seu dinheiro não comprará outro minuto

Poeira no vento
Tudo o que somos é poeira no vento

Poeira no vento
Tudo é poeira no vento

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quanto valho (ou é por quilo?)

valor-e-prec3a7o

sabe o que sou, no rótulo?
sou mulher
padrão de beleza midiático:
alta, loira, olhos verdes, cabelos longos
longilínea

sabe o que sou, no conteúdo?
tudo que cabe nessas letras
somado a tudo que não cabe em nem uma
mais o que se acumula em 33 anos de vida
(e alguns meses)

sabe o que eu odeio?
ser julgada primeiro por esse padrão
a estética que o século 21 diz ser belo
o pedaço de carne
que a mídia quer te convencer
que vale a pena ficar
que vai te fazer gozar

mas eu não Mi resumo a isso
o rótulo não Mi cabe
o tempo não Mi comporta

e Eu odeio, simplesmente ODEIOOO
com todas as minhas forças
[e formas]
que alguém se aproxime [só] pela capa
e não pelo conteúdo

sabe aquele comportamento racista padrão:
se é negro, deve ser ladrão, inferior, menor
então, no meu caso, é o racismo reverso:
se é loira, olhos verde e sobrancelha de veludo,
deve ser boa pessoa, ter boa índole e boas maneiras

e embora me custe muito dizer isso,
MI sinto obrigada a denunciar essa hipocrisia!
eu posso ser bonitinha, mas Ordinária, Baixa, Suja,
capaz de toda forma de engano só pra atender
à sua expectativa de padrão de pessoa
“confiável” e me beneficiar disso

Eu posso ter um corpo belo, mas uma alma desprezível
e se você preza pelo mínimo de amor ao serHumano,
pare de Mi julgar pela minha capa!
quem sabe assim, você para de julgar o outro também
e comece a julgar mais a si

E vou além:
minha carne não está à venda no balcão do açougue
é preciso muito mais do que moeda ou um padrão beleza pra Mi conquistar
é preciso vontade (primeiro a minha), afeto, tempo, paciência, transparência
resistência e total capacidade de dialogar e de reconstruir desconstruindo

é preciso, principalmente, sair do lugar-comum
e parar de perguntar-imaginar: “ela deve valer muito”

(Acredite: eu valho tanto quanto um SerHumano em sua singularidade pode valer)

o valor da Mimi tem mais a ver
com o que não se vê
com aquilo que vai por dentro,
as sutilezas que me constituem
as dúvidas que me destroem
e a certeza da Incerteza

o valor nada tem a ver com a etiqueta
quando o conteúdo não cabe no rótulo

[ }

[ ]
Hoje
quero ser
aquela cadeira vaga
aquele espaço vazio
aquela página em branco
aquela frase incompleta
aquela sem rima

quero ser
aquela dor no peito
aquela [dor] crônica
que não passa
que sempre
disFarça

quero ser
o silêncio que muito diz
o que não conDiz

quero ser
a marca do xis
escrita a giz

que facilMente
Se apaga
e sempre
Fica

Aqui jaz a Michelle (a que Fui…)

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Gente… pessoas queridas do meu coração…
Cansei.
Cansei e quase morri.
Por isso, mais uma vez, escrevi.

Não quero parecer fatalista, escapista
Quero ser realista
Ou o máximo que a realidade me permitir

A vida muda, sabe, gente?
A gente muda.
Eu mudei.
E admito.

E diferente de muita gente,
A Mimi aqui se expõe
Eu Mi exponho.
Para tudo aquilo que julgo importante expor.
Por tudo aquilo que acho importante “lutar-por”.

Então, eis aqui a minha lápide-crisálida:
Sim, crisálida porque passei por metamorfoses…
Nasci bebê, menina, infantil.
Mamei leite de peito até não poder mais
Tomei papinha até não gostar mais
Comi carne até não querer mais
Brinquei de boneca até não Mi interessar mais,
Porque cresci

Hoje a borboleta abriu as asas para outros voos

Gostei de bala de caramelo e hoje prefiro Trident
Gostei de “Maria do Bairro” e agora assisto “Black Mirror”

Li Julio Verne, Turma da Mônica, Ziraldo
E hoje leio Clarice Lispector, Ivone Gebara, Ronilso Pacheco, Foucault
(Não que os primeiros eu não queira mais ler rs)

Ouvia Xuxa, Balão Mágico e Bozo (nossa… rs)
Hoje ouço Arnaldo Antunes, Los Hermanos, John Williams
E tem um monte de outros: Hans Zimmerman, Zaz, Francisco, el hombre, Baraka sound, Monica Salmasso

Enfim, a lista não tem fim
Nem se pretende assim

Mas isso não foi de repente…
Leva tempo…
Como de fato levou…

Foram 33 anos de existência
De vivência
De aprendizados
Descobertas
Re-descobertas
Reflexões
Leituras
“Escutaturas”
Trocas
e silêncio

É isso que não faz sentido pra muita gente:
e tem gente que diz que foi da-noite-para-o-dia
e que esses autores, escritores, cantores, músicas…
e até amigos Mi fizeram a cabeça

Sinto dizer, mas eu sinto muito.
eu sinto afetos e os afetos me fazem pensar
me fizeram perceber coisas
me fizeram mudar
Mi mudaram
Viver mudou a Mimi

Gente, eu mudei…
em muitas coisas, eu mudei

Sinto dizer, mas a Mimi morreu algumas vezes
E essa de hoje também vai morrer daqui a um tempo,
Como diz o ditado: quem viver, verá!

E como diz Clarisse:
“Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.”

E Clarisse tem muita razão em dizer isso,
Porque eu posso dizer que muita gente não Mi cumprimenta-Ria na rua

Não que eu não fosse eu antes, mas em algum momento, percebi que não estava agindo como a Mimi pensava (aqui dentro de Mim)
Porque eu percebi que tinha um monte de dúvidas que eu não deixava respirar,
mas precisava

Porque, em algum momento, eu me vi nesta música:
“Eu não quero mais mentir
Usar espinhos que só causam dor
Eu não enxergo mais o Inferno que me atraiu
Dos cegos do castelo me despeço e vou
A pé até encontrar
Um caminho, um lugar
Pro que eu sou”

O que eu-mimi sou mudou
E o que posso ser
também

Minha avó Mi mudou
Minha mãe também

Minha irmã e meu irmão Mi mudaram
Meu pai também

Casar Mi mudou
Namorar também

A faculdade Mi mudou
O trabalho também

A Alice Mi mudou
O Dani também

Viver Mi mudou
Morrer

Também

E eu renasci
Em muitos sentidos
Com muitos sentidos

Sei que “poder viver” dói tanto quanto “poder morrer”
Mas eu não estou aqui pela prerrogativa da vida ou morte certas
Estou aqui pela potência

Estou pelo que posso ser
Poder escolher
Poder

O simples e não-garantido
Poder-viver

A potência que o viver me gera:
É isso o que Mi move

E hoje eu Mi permito respirar por letras
Cantar por estrofes de poesias

Mi despir e Mi cobrir de palavras
De sentidos

Fazer sentido
Não fazer

Sentir!!!
Hoje eu Mi permito
Sentir

Mi permito ir!

Ser
e não ser

Hoje eu escrevo, como Belchior,
esse canto-poesia-Torta

Tenho 33 anos de sonho, vida e morte
Terei não-sei-quantos-anos mais de vida,
de despedida
e de sangue
e de lágrima escorrida

E espero que esse cantoTorto
Essa poesiaTorta
Essa pessoaVivaEnãoMorta
Feito faca,
Feita de sentimentos
Cheios de vida

Cortem a carne Insensível
e alcance o espírito-Quase-Invisível
que eu juro que vi, algum dia,
nas pessoas amigas e família
que um dia eu conheci

Mas que hoje não conhecem a Mimi
E parecem nem querer mais Mi conhecer
E isso corta meu coração em pedaços-Mil-de-dor

Eu sigo por aqui, amando, tentando,
Caminhando e tropeçando
Anunciando a pé a fé devagar
Do que sou-estou

Até morrer de novo e
seguir o ciclo
do viver e renascer

E deixar minha marca
na lápide da existência
“Ali jaz a Michelle”

Qual delas?
Depende.
De qual fase da vida estamos falando?
=)

Espero ter a companhia dos que Mi amam como sou-Estou
Os que falam do passado… visitem a minha lápide
E conversem com ela

Grata.
De nada.
Amo vocês!*

Referências às musicas-poesias e textos:
https://www.letras.mus.br/belchior/44448/
https://pensador.uol.com.br/se_eu_fosse_eu_de_clarice_lispector/
https://www.letras.mus.br/nando-reis/96673/
Ah, sim, meu site: https://umpoucodemimimi.wordpress.com/
* E não desejo mal a “quase ninguém” 😉 ❤

O presente dO presente

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O sorriso da Alice
O bom dia do Dani

A visita de um amigo
Dar a mão
Segurar a mão

Fazer uma pergunta
Receber uma pergunta

o-olhar sincero
Lágrimas escorrendo
Muitos há-braços

Lua sorrindo 🙂
Luar

O nascer do sol
O pôr-do-sol
Arrebol

Um dia azul
A música Azul

Uma mensagem de bom dia
O dia azulejando
O sol queimando

Olhos azuis
A música que Mi lembra eles

A melhor companhia
Uma melodia
borboletas com cafés

A f(l)or
e seus espinhos

Confiar no melhor
Esperar o melhor
Fazer o melhor

Acreditar no outro
Sentir Com o Outro

Uma Mesquita, duas Niskoskis
Um Peter e muitas brigas
Amores pra toda vida

Fazer biscoitos 1,2,3
Ganhar biscoitos

Escrever poesia
Ler poesia
Ser poesia

1,2,3
(E dar também 🙂 )

Convidar amig@s
Ter amig@s
Ser amig@

Ser e deixar ser
Aprender

Poder brincar
Poder viver
Brincar de viver

Falar
E ouvir dizer

Começar de novo
Tentar
ReComeçar

A beleza
Da leveza

O melhor de Mim
Recheado do pior de Mimi
Embrulhado no papel de poesia

Que acabei de escrever
E escolhi dar pra você

De presente
No presente

Que acabou de virar passado
E que você pode levar pro futuro

Até desembrulhar
E virar passado
De novo

E que você pode abrir
No futuro de novo

Até descobrir
Que o melhor
Presente:

É ser-Estar presente
É viver O presente

Seja qual for
Seja qual f(l)or(es)

 

Brincar de viver

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Brincar é subverter a ordem
É não ter ordem
É recriar a ordem

Brincar
É não ter hora certa
É fazer a hora certa

Brincar é rir até chorar
É não querer parar
É perder o ar

Brincar é soltar pipa com o fio da imaginação
É soprar suas doses
Como se sopram as bolhas de sabão

É correr pra sentir o vento correndo
É sentir a primavera florescendo

Participar da energia do organismoMundo
Não se importar em ser o segundo

Brincar é descobrir o mundo como criança
Querer descobrir tudo no primeiro toque

Descobrir pelo toque
Descobrir com o toque
Descobrir o toque

É descobrir sabores e aromas
Descobrir sensações e emoções

É fazer de todaVez
A primeiraVez

Brincar é saborear o néctar do rotineiro
É se encantar com o comum e corriqueiro

Brincar é apreciar a melodia do dia a dia
É enxergar a beleza do comum
No café com leite de mais um dia

Brincar é ver o mundo de ponta-cabeça
É virar de ponta-cabeça

É plantar bananeira
É ser a bananeira
Brincar É ser a brincadeira

Brincar é ver no simples o encantador
Se encantar com o raio de sol
Gostar de sentir o vento do ventilador

Brincar é descobrir junto
É fazer junto
É tentar junto
É criar junto
E também fazer sozinho

Brincar é pintar o nariz
É rir do que fiz
É rir do que não fiz
Poder ser feliz

Rir até chorar
Rir até do choro
Chorar de tanto rir

Brincar
É (se) descobrir sem-querer
É (se) viver por-querer

Bora brincar de viver?
😉

viver: ai, Isso dói!

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viver dói:

Dói saber que não há remédio pra todas as dores
Dói crescer (às vezes, literalmente)
Dói amadurecer
Dói sentir
Dói mudar
Dói começar
Dói terminar
E também dói re-Começar
Dói não saber o que virá
Dói ter que esperar
Dói se entregar
E também dói se fechar
Dói se vulnerabilizar
Dói não ser reconhecido
Dói não ter um ombro amigo
Dói estar sozinho
Dói querer estar
Dói olhar pra dentro
Dói não encontrar alento
Dói não encontrar resposta
Dói duvidar da aposta
Dói ser inteiro
Dói ser verdadeiro
Dói se mostrar por dentro
Dói não encontrar seu centro
Dói ir fundo
Dói ser proFundo
Dói querer ser
Dói tentar ser
Dói não saber o-que-ser
Dói escolher
Dói perder
Mas isso tudo é viver:
viver é feito de morreres
e morrer se faz de viveres
Viver é processo:
é avanço feito de retrocessos
Viver é ciclo,
Quiçá in-Finito
E se tem coisa
feita pra não ter fim
mas que tem fim em si
é o amor:
feito de doeres
Faz todos os viveres
in-Finitos
in-comparáveis
in-termináveis
faz da vida ciclo
faz do amar um círculo
com um fim em si
o amor faz a vida valer
ainda que volte a doer
(e vai voltar!)

A [agri]doce ilusão de Justiça

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Dia desses fui surpreendida por uma citação que remeteu à justiça de Deus que até me deu arrepios.
O arrepio foi por notar tamanha vontade de vingança, justiça própria ou algo que tenha alguma “pretensão de semelhança no fundo” com o que a pessoa entende ser “justiça”. Sim, você leu certo, usando aspas porque o conceito de justiça como algo fixo e imutável é uma [agri]doce ilusão. Justiça é um conceito tão dinâmico quanto a moda ou o consenso de “bom senso”.
Houve um tempo (e ainda há) em que fazer uma prova era considerado “uma motivo justo” para absolvição. Daí deriva o conceito de “prova” do direito contemporâneo, inclusive. Tão volúvel quanto o discernimento de um juiz corrupto, tão (i)lógico quanto os critérios de um déspota, é assim que se caracteriza uma causa como justa. O melhor em oratória, o melhor de uma corrida de 100 metros, o significado dos números na cabala, o que consegue decifrar um enigma, o que possui o favor do rei, o que tem o melhor padrão de beleza estética, o que sobreviver em uma arena de gladiadores e animais ferozes.
Isso era justiça.
Em muitos lugares, isso ainda é justiça.

Justiça não se define assim, como o preto e o branco: se tem pigmento é preto, do contrário, é branco. Ou como o quente e o frio: se há agitação de partículas, é quente, se não, é frio. Ou ainda como o escuro e o claro: se há luz, é claro, se não há é escuro. E não venha me dizer que a justiça é justa porque obedece às leis, mesmo porque, as leis não surgem do céu, elas são feitas por meio de concordâncias (ou quase isso) entre pessoas que em geral representam alguns grupos sociais. São um exercício de poder. Mas esse é só um “rascunho no papel” pra explicar de forma simples o conceito complexo de justiça. Ele não se faz apenas de leis, é fruto de uma conjuntura cultural, mitos e crenças, valores e juízos de pessoas que vivem em comunidade (via de regra, por opção), com interesses conflitantes e disposições divergentes para chegar a uma “quase-pretensa” solução de convívio harmônico. Disso deriva o conceito de justiça.

Porém, como tudo na existência, esse é um conceito que flui pelas águas do tempo e do espaço… toma formas diferentes em lugares diferentes em diferentes épocas .

Ouço pessoas falando de justiça como se fossem as águas paradas em um tanque, ou em um poço: estão ali e não vão mudar, não vão se renovar. Ocorre exatamente o oposto: ela é tão dinâmica e fluida quanto as águas de um rio cuja fonte é considerada incessante, mas, dada a finitude dos recursos (e da vida), sabemos que ela algum dia ela vai secar. Não é estática. Não é estanque.
Talvez esteja mais pra uma comparação com relação entre as massas de ar afetadas pelas diferenças de temperatura e pressão. Se pudermos traçar um paralelo, esses dois elemento equivalem ao contínuo espaço-tempo: mudar um muda o outro.
E o elemento adicional determinante dessa composição é o mesmo elemento determinante de toda existência: o ser humano, suas percepções e conclusões. Suas intenções e provocações.
Eis então os fundamentos do conceito de justiça: o tempo, o espaço e o homem se relacionando entre si e com o meio. Mudar um, necessariamente mudará o outro.

Enquanto o homem for homem, instável, inventivo e genial: a justiça não será justa, como nunca foi.

Talvez se atentarmos para o único homem que, segundo a história (narrada por muitos outros homens), conseguiu romper uma das leis fundamentais da vida: a lei da morte, talvez com o legado dele, a gente comece a entender o porquê de a justiça ser uma ilusão.
Segundo ele, a “lei primeira” (e última) devia ser “lei nenhuma”: a lei do amor. Amar a todos sempre, sem exceção. Oferecer a túnica, dar a outra face, andar mais um quilômetro, perdoar as dívidas, sofrer o dano e seguir a vida.
Agora, me ajude a entender: isso parece justo?
Acho que a resposta seria um contundente NÃO!
Sabe por quê?
Porque a justiça é uma ilusão. Nossos critérios do que é justo são comparados a panos sujos de sangue de menstruação – ecati, que nojo!
É nojento porque justiça, justiça MESMO… mesmo, mesmo, ela não existe, não é natural, não é real.

E se a lei do amor é a única lei válida, logo, a única justiça possível é a ausência de todas as leis que não sejam a lei do amor. É perdoar a dívida, é ser devedor, é ter como se não tivesse, é doar espontaneamente. É ser o que se pode ser. É errar. É acertar. É tentar.
O amor é incoerente, é ilógico, incompreensível.
É ser você na sua mais pura essência.
Isso é ser justo: é ser verdadeiro, é ser real.

A ilusão da justiça é essa: ela não existe, nossos critérios de isonomia, igualdade, “justiça” vão sempre perder, porque o amor, ele é injusto e sempre será.
Ele é a única lei válida. E até ele não se pode obrigar.

Ame se puder, como puder, o quanto puder, se puder e, principalmente:
Ame se quiser.

Amar é a única lei (In)justa e (des)obrigatória que pode trazer justiça, realidade e vida.

Ah, mas eu esqueci: a “lei justa”, ela não existe… é uma ilusão… uma utopia.
Talvez seja essa utopia do amor-(in)justo que vai nos dar ânimo para caminhar em busca da felicidade…
E quem disse que nós fomos feitos para a felicidade?
(Segundo seus escritos, Freud insistia nessa pergunta.)

Acho que deve ser mais uma daquelas ilusões que nos movem… assim como a ilusão do amor-injusto, felicidade é utopia.

Mas, afinal, pra que servem essas ilusões?
Pra que serve a utopia?
Eduardo Galeano arriscou uma resposta:
“Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”
E seguimos caminhando…
fazendo do caminhar o caminho
fazendo o caminho a caminhar

De preferência, sem a ilusão de justiça
😉

 

 

não, Não estamos prontos,

Red Pencil Drawing Oval Speech Balloon with Ellipsis

Ninguém está pronto

Ninguém nasce pronto

Ninguém morre pronto

 

Viver é um estado dinâmico

Estou hoje, mas não sei se estarei amanhã

Quero hoje, mas não sei se quererei depois de amanhã

 

E ainda assim,

Quero poder estar hoje

Quero poder dizer hoje

 

Quero poder dizer:

que talvez não queira dizer nada amanhã

que talvez não queira estar em lugar algum amanhã

 

Quero poder admitir hoje

Que minha definição de amar

Não cabe na sua (nem precisa)

 

Quero não ter que querer

E admito que nem sempre tenho uma explicação

Mas (quase sempre) respeito quem sempre  (“acha que”) tem certeza que tem

 

Quero poder dizer o que penso

Porque não quero ter “coisas que não se dizem”

Porque não “há coisas que não se dizem pra quem se ama”

 

Porque, para mim, para esta Mimimi:

Tudo o que se diz é porque se ama

E quando eu não quiser mais falar, é porque falAr não vale mais a pena

 

Mas enquanto eu [ainda quiser] falar,

é sinal de que ainda quero tentar,

ainda quero viver,

 

quero dar chances para a ligação que existe,

para a chama que se ascende

no triângulo do fogo da sobrevivência [x+y+comunicar]

 

Pois falAr, pra mim, é sinal de vida, é sinal de persistência

É luz em meio à escuridão do silêncio

É calor no frio da existência

É encontro em um mundo hostil

É perder pro sucesso performático

É ganhar pra comunhão trôpega, desengonçada

 

A experiência de viver precisa de falas imprecisas

Precisa de uma torrente de palavras,

R.i.o de sentimentos e m.a.r de transbordamentos

É preciso saber que viver é IMpreciso

 

]Assumir a constância da inconstância[

Ou a inconstância da constância

Gangorra de InStAbILiDaDeS

 

Viver é continGente: é o plano B, C ou D…

É gente aprendendo a ser gente

É cultivar dúvidas e [falta de] respostas na mente

 

É ouvir que a morte e a vida, o fim e o início

Chegam de repente

E a gente aprende a fazer repente

 

E passamos a criar novos versos

Nas estrofes da vida

Resilientes à intensidade da chuva ou da brisa

 

Sentamos na cadeira do aprendiz,

Percebendo que Ser é processo,

É incompleto

 

É saber que nem sempre há um culpado

E que nem sempre (ou nunca) isso é relevante

 

Porque viver…

Viver é o que cabe dentro de uma reticência

É ciclo, é espiral, é redondo

 

Viver…

Viver é inacabado

o Pi da utoPIa

numero-pi

Encontrar um amigo

É encontrar um abrigo

Um abraço, um “olhar pra fora do umbigo”

 

É acreditar na magia

Num mundo que vê o amor

Como uma mera fantasia

 

É encontrar o último algarismo

No cálculo de Pi

É acreditar na utoPIa

 

É irracional e transcendente

É simples,

É por acidente

 

InCrível e contraditório

Observatório

Seletivo e aleatório

 

Esperançar o desEsperado

É velar o acAmado

Velar o Amado

 

É um distante-perto,

um perto-perto, 

um querer-estar-perto

 

É astral

Uma ligação mental

Um espectro de gente [fora-dA-gente]

 

É militar pelo que se acredita

É crer no que se Des-acredita

É creditar sem fundo

 

É ser o fundo

Ser pro-fundo

Dar fundamento

 

Base para o recomeço

Terra para re-floresço

Chuva para o clima seco

 

Grão para o novedio

Pão para o faminto

Calma para o arredio

 

Nascente

e poEnte

Para a estrela guia

 

Ente querido, escolhido

Gente da gente

Igual, embora diferEnte

 

Nascente

Leito

E Mar

 

Para

O [dis]Curso

do rio

de lágrimas

de risos

de gargalhadas

de cascalhos

de dilemas

de surtos e de problemas

de mistérios

de soluções e de invenções

Que corre

Das fontes da vida

 

Amigo é tudo isso

É nada disso

É o que precisa ser

 

Amigo nunca

deixa

De ser

 

E

sempre

deixa ser