PENSO, LOGO EXISTO?

cabeça e coração

Sinto, logo existo!

Já dizia Aristóteles que “a nossa razão é inteiramente ‘vazia’ antes que tenhamos sentido algo.”
O sentir suplanta o pensar? Suplanta o conhecimento? Ou o nosso pensamento é fruto do que somos e sentimos? Afinal, quando se fala do ‘sentido’ da vida estamos nos referindo à ‘razão’ da nossa existência.
 
Não existe a razão sem o sentido, afinal todos os sentidos nos movem para algum lugar, nos fazem entrar em ação. A ação, apesar de não ser exclusiva da raça dos pensantes, como eu e você, aquela ação coordenada e organizada com um objetivo específico, nos dá sinais de que não agimos somente por reação, mas sim por uma motivação, ou seja, algo que determina a razão.
 
Sentimos fome e procuramos algo para nos alimentar. 
Sentimos sede e buscamos algo para beber.
Ah, mas não era desse tipo de ação que eu estava falando, verdade!
Estou falando dos sentimentos que nos impulsionam a buscar: encarar o desconhecido, encontrar algo novo, que possamos destrinchar e descobrir, enfim, os sentimentos são o que nos permitem evoluir. Sentimento tem um quê de instinto, de intuição, de percepção, tanto própria quanto alheia… uma ampla compreensão das impressões externas, de entendimento do mundo.
 
Taí: acho que encontrei no Priberam uma definição que eu sinto que se encaixa melhor: o dicionário diz que sentimento é ‘uma consciência íntima’.
Mas, que tal falar do sentir ao invés de simplesmente tentar se definir?
Digo que sinto e, por isso, existo, porque o sentir pré-existe ao pensar. O ser humano nasce sentindo: sente a luz no momento do nascer, e olha que luz ofuscante! Sente medo ao sair empurrado do ambiente aconchegante do ventre materno (ou ao ser puxado, como é o caso dos partos marcados na agenda). Sente frio e desconforto quando está sendo limpo e examinado pelos médicos na sala de parto… Assim, depois de tantas surpresas desagradáveis, nossa primeira reação é sentir vontade de gritaaaar! E gritamos, é isso que fazemos, gritamos e esperneamos brilhantemente para que nos deixem em paz!
 
Se Descartes disse “penso, logo existo”, eu vou além (ou antes) e digo sinto, logo existo.
O sentir faz parte do pensar, pois sem o sentimento não existiríamos.
Sentir faz parte de uma autoconsciência. Sim, quem se conhece, conhece bem os seus sentimentos. Ou, no mínimo, se esforça constantemente para conhecê-los e examiná-los e destrinchá-los e provocá-los e estudá-los…
Sinto uma brisa suave a me acariciar, o vento a me tocar…
Sinto as primeiras gotas de uma chuva que ensaia para cair… como se fosse para me refrescar numa manhã primaveril.
Sinto afeto de uma criança no seu olhar, no seu brincar e também no seu chorar.
Sinto o carinho de amigos quando me abraçam, e também quando não me abraçam mas gostariam de me abraçar, e, limitados pelo tempo e pelo espaço, nem sempre o podem.
Sinto saudades… profundas saudades dos meus amigos: os de perto, os de longe, os reais-reais e os virtuais-reais, aqueles com quem falo diariamente, aqueles com quem falo eventualmente, mas quando falo, é como se fosse uma conversa começada ontem e retomada sempre, como se nos (re)encontrássemos sempre…
Sinto vontade de poder compartilhar com todos eles cada nova descoberta que fiz e cada tropeço do meu caminho… e rir das minhas mancadas, que são muitas!! (Quem me conhece sabe que são!)
Sinto a ternura no beijo e no abraço de uma criança… o amor genuíno e desinteressado dos pequenos me inspira!
Sinto que sou revigorada e reconfortada por um abraço amigo… ah, um simples abraçar transforma o meu dia, e aposto que transforma o seu também.
Sinto que deveria fazer isso mais vezes: dar um beijo tão doce quanto o de uma criança e um abraço para renovar os ânimos de quem precisa…
Sinto que tem muita gente por aí precisando disso: de um abraço quente e um olhar amigo.
Sinto que uma palavra dita com a transparência e o desejo sincero de ajudar podem, sim, alcançar esse objetivo e revigorar as energias para se alcançar mais um passo, mais uma légua, mais uma maratona… enfim, mais uma vida.
Sinto revolta pelos que se deixam afastar pelas diferenças mais do que se aproximar pelas semelhanças.
Sinto que se nos dispusermos a desfazer os muros das diferenças que nos separam, do olhar preconceituoso que carregamos, a retirar a arrogância dos nossos ombros, o narcisismo das nossas plavras e nos lembrarmos das histórias que ouvíamos quando crianças, o mundo pode, sim, ser melhor.
Sinto que enquanto ‘o mundo inteiro’ está olhando para os problemas gravíssimos, a iminência de guerras e para o preço do petróleo, estamos esquecendo das gentilezas do dia a dia, daquele sorriso acompanhado por um ‘Bom dia!’… esquecemos da mão suave e infantil segurando as mãos enrugadas e experientes, enquanto pede ‘A sua bênção, vô’ e sai correndo em disparado antes de ouvir a resposta serena do senhor, que diz ‘Deus te abençoe minha netinha’, como se fosse um sussurro…
Sinto que corremos como crianças… Saltitando para descobrir o mundo, mas o mundo todo somos nós em nossas pequenas cidades interiores, nosso pequeno e grande círculo familiar, nosso pequeno bairro de amigos e vizinhos próximos, nossos amigos de colégio e da época do vestibular, nossos amigos de faculdade e de mais um sem-número de outros cursos e trabalhos…
Sinto que precisamos, sim, lembrar que o mundo inteiro precisa de nós e que nós precisamos querer fazer esse papel fundamental que foi criado como único e insubstituível no palco da vida, para fazer diferença na vida de quem conhecemos e para construir o mundo que sonhamos quando éramos pequenos. Um mundo que saiu dos sonhos e chegou à realidade. Mas não uma realidade como aquela infantil, e sim uma realidade possível, na qual pensamos antes de agir, na qual refletimos no nosso papel antes de ‘jogar pedra’ nos políticos e chamá-los de corruptos.
 
Um mundo real em que pensamos no coletivo e não apenas em como enriquecer e ser a pessoa mais feliz do mundo! Que tal pensarmos no planeta mais feliz do universo? Que tal reunirmos nosso sentimento para pensarmos e agirmos pelo nosso bem e pelo bem de todos?
Que tal fazermos isso agora, tomando uma atitude sincera de fazer diferente, fazer o que é certo porque é o que você faria e não por causa daquilo que o vizinho não fez? Que tal começarmos fazendo do nosso trabalho o melhor trabalho do mundo, das nossas famílias aquelas que serão as mais amadas?
 
Sinto que mudar o mundo é fazer o que sentimos e pensamos ser o mais coerente. Mas não é fazer porque tem ‘alguém olhando lá de cima que vai nos punir’, mas sim porque se fosse eu, tendo o meu carro batido eu gostaria que a pessoa que bateu me ligasse para reparar o dano. Se fosse eu, fazendo uma compra e pagando um valor superior, eu gostaria que alguém me devolvesse o troco. Se fosse eu, vendo uma pessoa vendendo um computador/telefone/carro mais barato, eu não compraria porque sei que não é possível um preço ser justo estando 70% abaixo do preço da loja.
Sinto que a mudança que queremos ver no mundo devemos ver primeiro em nós!
 
E penso, (sim, penso) porque sei que sinto toda essa revolta que toma conta de mim quando vejo uma criança que quer crescer e aprender para mudar o mundo não poder porque… porque não tinha uma mãe para cuidar… uma criança que deveria estar aprendendo e desenvolvendo todo o seu potencial, mas já não pode mais… porque o sistema corrupto, com o qual somos todos coniventes e coparticipantes, não permitiu que ela vivesse mais um dia para ver esse mundo mudar.
 
Eu penso na revolta que sinto ao ver quantas pessoas são ludibriadas e enganadas pelo sonho fácil de passar na prova por um ‘milagre de Deus’ e não pelo resultado do seu próprio estudo e esforço!
Eu penso no misto de revolta e insatisfação que me acomete quando vejo pessoas que não têm nada, que vivem na miséria, que não têm nem ‘o pão que o diabo amassou’ para tomar um café da manhã, dando tudo por uma promessa de enriquecimento fácil, sem trabalho, sem dedicação; promessa de felicidade fácil, sem amor, como se a felicidade fosse uma constante, um antídoto contra todas as frustrações; de alegria sem as tristezas e as dores necessárias; de conquistas sem as lutas, sem as concessões e sem sangue; promessas de amizade sem cumplicidade.
Sim, sei que penso porque sinto, porque não existe um mundo melhor sem esforço, sem dores, sem perdas, e sem o meu e o seu sangue, sem o meu e o seu suor!
Sim, sinto que quando começarmos a pensar de modo coerente com o que sonhamos e a sentir o peso de nossa responsabilidade, então vamos existir como seres sensíveis e pensantes para viver nesse mundo. Um mundo criado para vivermos e desfrutarmos de suas riquezas e de sua qualidade única de habitável (que ainda não pertence a nenhum outro de um universo que se descobre mais infinito a cada dia). E por esse fato, sim, eu dou graças a Deus!

Sim, eu sinto, logo existo, e logo ajo.

Ajo de acordo com os meus sentimentos e eles se misturam com a minha razão. A minha ação é sim fruto também dos meus sentidos: do que vejo, do que ouço, do que saboreio, do que cheiro e, principalmente, do que toco e dos que me tocam! Eu sou fruto dessa constante interação entre o que me toca e o que eu toco e de todos os sentimentos que se processam nessa troca.

Eu sou fruto de uma constante mudança que acontece aqui dentro… um interpretar e reinterpretar… um comunicar constante, um agir e interagir quiçá infindáveis de uma pessoa como você, feita para ter começo e não para ter fim…

OBS. 1: [Do original  Dubito, ergo cogito, ergo sum: “Eu duvido, logo penso, logo existo“, por René Descartes].

OBS. 2: [Esse post foi originalmente publicado por um amigo querido em seu blog diletante, cuja linha de pensamento, embora nem sempre convergente com a minha, sempre me faz refletir, discutir e pensar: http://sensodiletante.blogspot.com.br/2013/11/penso-logo-existo.html%5D
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