Eutanásia virtual e distanásia: quando DESconectar?

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O que define a vida?

Ou melhor, o que define a existência?

Será que podemos definir uma vida pelo simples inspirar e expirar?

É preciso desligar o plugue

É preciso sentir o vento bater no rosto

É preciso perder algumas imagens de fotos,

E mantê-las apenas lembranças

É preciso cortar o laço para continuar dando nós em outros portos da vida

Na verdade, isso tudo é muito imPRECISO

Afinal, como saber quando se deve deixar acontecer e simplesmente viver?

Como saber se o momento deve prevalecer?

Como saber se é aquele que ficará perpetuado num link de uma página

Ou perpetuado como um conjunto de emoções e sensações que só a memória seria capaz de ressuscitar?

Esta é a difícil pergunta de nossos antecessores e mestres eternizados [cristalizados pela qualidade de mortos]: cortar agora a dor ou prolongar o sofrimento em busca de uma [pretensa] longa-vida…?

A companhia das crianças ;)

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Eu fico encantada com a sensibilidade das crianças! Elas nos enxergam como precisamos ser vistos, e provavelmente, isso é como realmente somos…
Eu estava distraída dando o almoço para minha filha após uma viagem maravilhosa, visitando pessoas incríveis e cativantes. Alice se apega com tanta intensidade que mal podemos controlar o seu choro pelas saudades e pelo apego àquela pessoa ou àquele lugar, e o lugar, por sua vez, torna-se o símbolo do resultado da soma de pessoas queridas com os sentimentos agradáveis gerados pelo encontro do lugar certo e a companhia perfeita. E durante esse almoço foi um desses momentos em que ela me viu desnuda e olhou direto dentro da minha alma.
Com a típica voz embargada para a profundidade da frase dita ”Mamãe, estou com tanta saudade da minha prima XX, da tia YY e do tio ZZ…”, no que eu, como toda boa mãe, na tentativa de me mostrar solidária àquele sentimento tão profundo e sinceramente declarado, prontamente disse: “Filha, eu também estou…”. Mas a nossa voz, ah, a nossa voz… ela é capaz de nos pregar umas peças, e denuncia quase naturalmente (e muitas vezes, desapercebidamente) o nível de profundidade, assertividade e de atenção que a pessoa que está falando possui. Dizem os especialistas que pode ser um dos sinais que revelam tanto a veracidade de uma testemunha quanto a dissimulação de um farsante. Pois bem, a minha voz me denunciou e a Alice nem titubeou, com aquela expressão de alguém que desvendou um segredo, declarou prontamente a sua constatação, acompanhada de um sorriso que é privilégio de poucos adultos: “Mamãe, você parece que está me enganando…rss”. Se fosse um adulto, usaria termos menos lúdicos e mais agressivos, mas era a minha pequena e doce Alice. E se houvesse um prêmio por situação constrangedora e embaraçosa, talvez ali fosse o momento da minha premiação. Sem saber exatamente como reagir, tentei disfarçar como pude, num tom entre a brincadeira e a vergonha desconsertada, repliquei “Como assim, estou te enganando, filha?? Por que você acha isso?”, no que ela prontamente explicou: “É que você não parece que tá falando verdade…rss”. Esse foi o momento em que ela viu minha alma, e possivelmente, se tivesse mais vocabulário, usaria outras palavras para expressar a sua constatação: eu não estava sendo sincera como ela, nem estava prestando tanta atenção… Eu estava longe, bem longe, pensando na rotina da vida e nos compromissos que se seguiriam até a volta às aulas (para ela) e volta ao trabalho (para mim).
E esse relato que conta uma parte da minha história eu pego emprestado para reforçar a constatação que fiz acima: as crianças têm uma sensibilidade tão viva que é característica de poucos que migraram para a fase adulta. Talvez esse seja um dos traços que Jesus se referiu quando disse que precisamos ser como crianças: sentir o que vemos, e perceber o que sentimos. Talvez seja o fato de usarem todos sentidos com equilíbrio juntamente com o cérebro, o ponto de encontro do sentimento com a razão.
O fato é que poucos são aqueles que conseguem nos enxergar como somos, e raros são momentos de lucidez em que nos deixamos ser vistos. Usamos rótulos. Ou melhor, somos rótulos. Sim, carregamos etiquetas com informações sobre o produto que somos. Apresentamos para cada ocasião um nome, levamos conosco as marcas e as expressões que convêm ao momento. Assim, revelamos até certo ponto a qualidade do fabricante, a resistência dos componentes internos e por que não dizer que declaramos sutilmente o nosso prazo de validade?
O bom leitor certamente saberá onde encontrá-lo. Sim, somos um letreiro ambulante da nossa expressão visual, verbal e física, com atitudes, pelo que falamos e pelo que não falamos, mas somente o leitor atento será capaz de ler, e esses são poucos. Ainda menor será o número daqueles que conseguem ler e entender, perceber as nuances da voz, das palavras usadas, das palavras não usadas, do ritmo, das pausas, dos gestos, enfim, poucos serão capazes de fazer uma justa avaliação do seu rótulo. Ou melhor, poucos serão aqueles que te escolherão sem se importar com o rótulo, mas pela pura e bela pessoa que você é.
Por isso mesmo eu ainda prefiro a companhia das crianças, ou daqueles que preferem se esquecer de que em algum momento cresceram; e preservam a mente inquieta, a espinha discreta e o coração intranquilo… Crianças gostam de você por você mesmo. Elas não tentam te encaixar numa classificação… elas nem se  importam com classificação, mas preferem a companhia, a pura e doce companhia. E com elas você nem precisa disfarçar: elas olham e já enxergam a sua alma.
Penso que preciso cada vez mais recuperar esse traço, essa pureza, essa dádiva de enxergar e ver a pessoa pelo que ela é, não pelos rótulos que ela carrega…

É, eu prefiro essa companhia 😉