Celebrando a [IM]perfeição

Imperfeito

Aproveitando essa semana de “ressaca” entre eleições…

Sei que não é muito o hábito das pessoas usarem seus blogs pra relatos autodestrutivos e com indícios de boicote, mas numa tendência de olhar a vida sob outro prisma, gostaria de compartilhar com vocês um evento do qual Não fiquei, nem estou minimamente orgulhosa de ter feito, menos ainda de falar, mas aqui fica uma tentativa de se evitar atitudes como essa de serem repetidas e replicadas e valorizadas [exceto pelo aprendizado]:

Como alguns de vocês sabem, eu estou grávida de cinco meses, mas a minha barriga é literalmente ‘de lua’: às vezes aparece pra todo mundo ver e às vezes se esconde no tamanho grande desta que vos fala… mas por que isso é relevante?
Pois bem, chegando no trabalho, minha rotina é: beber água e logo depois ir direto esvaziar a bexiga do copo d’água anterior. E foi exatamente isso que eu fiz num desses dias comuns, exceto pelo fato de surgir uma jovem senhora muito distinta me perguntar se o banheiro estava ocupado, no que eu prontamente respondi “não está, mas estará em poucos segundos” e ela, numa tentativa de evitar um aperto desnecessário antes de ir dar uma palestra, pediu com toda gentileza, como que tentando me comover: “Será que você não pode deixar eu ir bem rapidinho antes de você?” e ainda completou: “É poque eu vou entrar numa palestra agora…” e em seguida me olhou com aquela cara de pidona… de gatinho do Shrek…

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Aqui uma pausa para minha mais recente teoria sobre a falta de cordialidade feminina, fruto de minhas recentes experimentações: tendo vivenciado ao menos quatro meses de gestação e mais alguns anos como motorista [E a vida inteira como portadora dos dois genes ‘XX’], não me faltaram oportunidades de observar que as mulheres, via de regra, não são cordiais nem no trânsito, nem nos meios de transporte (ok, espaço para reclamações, réplicas e tréplicas concedido, mas a minha teoria tem fundamento! Eu vou explicar).
Se você pedir passagem pra uma mulher, há pelo menos 90% de chances de ela não te dar a vez no trânsito. Claro que há homens não muito cordiais no trânsito também, mas normalmente eles são só apressados e competitivos (tipo, quem sai primeiro no sinal, quem chega primeiro num local etc.), e quando você precisa pedir a passagem, a maioria deles dá a passagem, ou, ainda que nãos seja a maioria, certamente será mais do que 10% deles, então já é motivo pra se considerar uma falta de cordialidade quando em especial as mulheres não são solidárias a um pedido de passagem. Ok, além disso, a situação ainda mais crítica, mais frequente e igualmente cruel: a MAIORIA das mulheres simplesmente não dá lugar para gestantes ou idosos(as) que se apresentem numa condução, seja trem, ônibus ou metrô.
Aqui novamente eu deixo espaço pra todas vocês contestarem, mas eu falo do que tenho visto e vivido NA PELE… =(
E, inclusive, para minha GRANDE decepção, eu fiz parte dessa maioria esmagadora… talvez simplesmente pra corroborar [DESorgulhosamente] com essa minha teoria da falta de cordialidade feminina.
Dito isto, voltemos ao relato do banheiro…

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E lá estava eu, diante de um rosto que mais parecia o Gato de Botas, e – pasmem!! – para minha INfelicidade e grande decepção EU apelei pra minha barriga: foi uma questão de segundos, dei aquela olhada profunda pra minha barriga-quase-aparecendo, como quem diz “eu tô com ESSA barriga e você ainda tem a coragem de me pedir a VEZ??!”. A senhora mais que rapidamente entendeu o recado e desistiu da investida… Eu tentei fazer tudo o mais rápido possível e saí do banheiro em um tempo recorde, na tentativa de compensar pelo vexame que tinha feito na “cara do Daniel”, que estava ali, de camarote, assistindo a esse espetáculo da estupidez humana…
Como vocês podem imaginar, a moça já tinha desistido e se resignado ou se apertado ainda mais pra voltar pra palestra, que ainda demorou pelo menos 1 hora inteira pra terminar. Eu, por minha vez, com ares de triunfalista, ainda tentei argumentar comigo mesma (na minha falta de sensibilidade) e me convencer de que “eu estava com a RAZÃO”… quanta estupidez…
E pra minha própria estatística negativa, EU estava com a RAZÃO: nós, mulheres, NÃO somos cordiais… e eu comprovei isso na minha envergonhante pele…
Completando a minha vergonha ainda maior, na mesma semana, num dia em que eu estava realmente MUITO apertada, eu tive a vez cedida por duas gentis mulheres na fila do banheiro. A minha vergonha se completou de vez nessa hora, e eu não pude rejeitar aquela oferta porque a barriga está pesando cada vez mais. E o tapa ainda dói na minha cara… mesmo que a luva tenha sido de pelica.

Então, sim, confesso a minha estupidez da vez e não faço isso só pra parecer a pior das gestantes mal-criadas e insensíveis, mas pra me lembrar de que, apesar de tentar e [de fato] julgar muita gente o tempo todo, eu também preciso me lembrar da trave que está no meu olho antes de olhar para o cisco no olho do meu vizinho, colega de trabalho ou companheiras de condução, que aos meus olhos está tão claro …

E não, NÃO vamos celebrar a estupidez, nem a minha nem a sua. Mas também NÃO vamos fingir que ela NÃO existe.
Que tal simplesmente tirar a pose de perfeito(a) e dar a chance para uma recuperação a cada novo passo, a cada novo dia, como todo bom integrante do AA (alcoólicos anônimos) se considerar esse nosso vício egoísta um trabalho ainda INconcluído?

E você, quer falar da sua última recaída? Vamos nos suportar nessa NÃO celebração?
Da nossa [IM]perfeição?

E a música que inspirou esse vergonhoso post-confissão:
[Perfeição – Legião Urbana]

Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos Covardes, estupradores e ladrões Vamos celebrar a estupidez do povo Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado, que não é nação Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza Vamos celebrar nossa vaidade.
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda afetação
Todo roubo e toda a indiferença Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã.
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos Tudo o que é gratuito e feio
Tudo que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional (A lágrima é verdadeira)
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão.
Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão Vamos celebrar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso – com festa, velório e caixão Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção.
Venha, meu coração está com pressa Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão.
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera – Nosso futuro recomeça: Venha, que o que vem é perfeição

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