Alma de pincel

Alma

Tenho mãos de pincel,
Que estão sempre pintando numa tela,
Uma tela de papel ou de LCD,
Uma tela de um tablet ou de um smartphone

Uso minhas mãos para pintar uma paisagem
Desenho a paisagem no infinito da composição das letras que se juntam numa dança mental e atravessam os dedos das minhas mãos,

Escorrem pelos meus dedos,
Escorrem pela ponta do lápis,
Escorrem pela tinta da caneta,

Uso minhas mãos para dar forma
Dou forma à substância ainda informe [porém viva e pulsante] da minha imaginação
Dou asas à criação e às imagens que se formam nesse universo particular
Nessa mente peculiar

As formas que se formam a partir de imagens daqui de dentro
Formam letras e palavras aí fora
Criam imagens nesse universo vazio, nesse universo sombrio
Onde ninguém mora,
Onde todos se produzem e reproduzem
Onde todos se refletem
Mas não refletem

Minhas palavras fazem o risco suave de um rosto
O meu rosto, o seu rosto?
O rosto anônimo, o rosto velado

Elas desenham o risco de uma silhueta infantil que bate à porta
Essa é a porta de uma casa simples e pouco atrativa
Aparentemente [?] pouco ativa [?]

Elas desenham o diálogo entre a criança que está do lado de fora
ansiosa por ali entrar e ali ficar
ansiosa por aí entrar e aí ficar
ansiosa por voltar àquela mente
à sua mente, à minha mente
que já não sente, que já não vibra nem permite
o carinho entrar,
a emoção entrar,
a canção cantar

Nem permite
aquela pequena criança voltar
e abraçar
e se sentar
nem se aconchegar
nem brincar

Esse desenho da minha mão
Ela o faz todos os dias
Juntando palavras vagantes…
Juntando palavras errantes…
Palavras vibrantes que querem poder se pintar de preto, de vermelho ou de azul nessa tela branca…
Mas o branco da tela é a cor que vence e pinta todas as letras que formavam essas palavras
Palavras vibrantes, dançantes
Palavras errantes, revelantes
Palavras desconcertantes, acariciantes

Que seguirão transparentes, dormentes
pintadas de branco no céu esbranquiçado
ou de azul no mar azulado

Seguirão descrevendo essa pintura silenciosa
Em palavras escritas todos os dias
Em palavras anônimas e antônimas
Em palavras acrônimas e diacrônicas
Palavras lavadas e desbotadas pela cor de fundo
Mergulhadas no fundo desse mundo [que segue mudo]

Desaparecidas em dourado
Na busca eterna do horizonte amarelado

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[Alma nova – Zeca Baleiro]

Sempre que te vejo assim
Linda, nua
E um pouco nervosa
Minha velha alma
Cria alma nova
Quer voar pela boca
Quer sair por aí…

E eu digo
Calma alma minha
Calminha!
Ainda não é hora
De partir…

Sempre que te vejo assim
Linda, nua
E um pouco nervosa
Minha velha alma
Cria alma nova
Quer voar pela boca
Quer sair por aí…

Eu digo
Calma alma minha
Calminha!
Ainda não é hora
De partir…

Então ficamos
Minha alma e eu
Olhando o corpo teu
Sem entender…

Como é que a alma
Entra nessa história
Afinal o amor
É tão carnal…

Eu bem que tento
Tento entender
Mas a minha alma
Não quer nem saber
Só quer entrar em você
Como tantas vezes
Já me viu fazer…

E eu digo
Calma alma minha
Calminha!
Você tem muito
Que aprender…(2x)

Então ficamos
Minha alma e eu
Olhando o corpo teu
Sem entender…

Como é que a alma
Entra nessa história
Afinal o amor
É tão carnal…

Eu bem que tento, tento
Tento entender
Mas a minha alma
Não quer nem saber
Só quer entrar em você
Como tantas vezes
Já me viu fazer…

E eu digo
Calma alma minha
Calminha!
Você tem muito
Que aprender…(2x)

Eu digo
Calma alma minha
Calminha!
Você tem muito
Que aprender…

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Histórias de bicicleta

bike3

Essa é uma daquelas que nos marcam por dizerem muito sobre quem somos genuinamente. Lembro-me dela não só por ter vivido intensamente, mas porque meu pai faz questão de relembrá-la constantemente por orgulho e pela conquista. Foi quando eu aprendi a andar de bicicleta e, sozinha, passei a tarde inteira com aquela Monark antiga. A rua era de barro vermelho do Goiás, pelos idos de 1991, e lá estava eu, menina loirinha e toda encardida de vermelho, descalça e persistente na tarefa de andar de bicicleta: passava de um lado para o outro com aquela Monark mais alta que eu, indo adiante [até o final da rua principal] e desviando dos ônibus de cada 2 horas que passavam pelo bairro com ruas de barro e quebravam aquela quase-solidão. Devo ter começado bem cedo e vi o sol literalmente cruzar o céu nas tentativas que tinham tudo para serem frustradas, não fosse a obstinação quase “maligna” dessa que vos fala… rs.

Finda a tarde e quase no apagar das luzes solares, eis que aquela desbravadora do impossível estava lá e, seja pelo cansaço da própria bicicleta ou porque a persistência leva à perfeição, finalmente consegui encontrar o equilíbrio sobre as duas rodas daquela gigante Monark rosa…

Testemunha do fato: o dono da venda em frente à casa dos meus avós, que fez questão de relatar a façanha. Meu pai até hoje fala: a Michelle, desde pequena sempre foi ‘teimosa’ e, a começar pela insistência na bicicleta, ela sempre consegue o que quer! [E eu até queria que isso fosse SEMPRE verdade…, mas eu ainda estou aprendendo a ser contrariada. O que acontece é que talvez eu esteja aprendendo a lidar com o mundo e seus diversos tons, seja de cores ou de sons.]

Repasso esse episódio com tanta frequência, seja pelo meu pai ou por mim mesma, que acabei acreditando que sou persistente e determinada em tudo o que faço. Sempre que vejo alguém falando de andar de bicicleta (e aprender), me pego revivendo claramente a minha façanha e sensação de “missão cumprida”. Levo isso até hoje: meus objetivos independem das pessoas e do que elas façam ou deixem de fazer – o que tenho que fazer, eu tenho que fazer pelo simples prazer de saber que minhas metas pessoais [e criteriosas] foram cumpridas.

Acho que é isso, mais uma amostra da Michelle aos pedaços 😉