Ainda [há-braços]

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ainda há-braços para dar
ainda há-mor para-mar
uniVersos pra explorar

ainda há mistérios para des-vendar
há-inda véus para t-Irar
respostas para dar

desculpas para des-culpar
há nós para des-atar
caminhos para caminhar

há-inda:
nós para precisar
nós para confessar
nós para amar
nós par-a-parar

ainda há nós 🙂
que venham m-Ais:
Anos
para-braçar

mesmo com medo,
poder há-braçar
mesmo com medo,
poder conFÉssar

poder pre-cisar

Enquanto
há-inda-braços
para des-armar

hÁ-inda
ha-verá
vontade para conTInuar

sem im-Por
sem o-Brigar

mesmo que h-Aja
o brigar

que não falte
[o-há-braço]

que não falte
[o-hÁ-mar]

Afinal#QoutroSouEu?

blog130

Tenho uma confissão a fazer. Trabalho num hospital há quase quatro anos, e pouca coisa no âmbito profissional me proporcionou mais orgulho e prazer. E olha que não sou médica e não trabalho na assistência ao doente, ao menos não de forma direta.

Ocorre que diante dessa falência múltipla dos órgãos do governo do Estado do Rio de Janeiro, esse hospital onde trabalho está à beira da falência, a exemplo de sua unidade federativa. Reações ocorrem de todas as formas e para todos os gostos: audiência pública, manifestações, apelos na mídia e nas redes sociais ― leia-se Facebook e Twitter. Há também os que se manifestam por meio do direito constitucional à greve. Eu, porém, com essa minha mania de pensar, tenho tido grandes dúvidas existenciais e morais com relação à adesão ou não à greve. Em virtude, principalmente do meu amor pelo hospital e pela sua importância no contexto de saúde pública, tenho relutado bravamente com a ideia (ainda que simbólica) de protestar por meio da greve. Com algumas ajudas aqui e perguntas ali, o que tenho feito nos últimos dias é participar mais ativamente nas reuniões, plenárias e assembleias e entender melhor como se dá esse movimento. E sim, aderi à greve de forma parcial.  

Essa é a confissão #1. Não é só essa. Tem mais.

A minha surpresa, porém, foi perceber a atitude reacionária de alguns médicos com os quais trabalho. Médicos esses que defendem com unhas e dentes o direito de operar seus pacientes e dar seguimento aos tratamentos, fazendo, portanto, apelo aos grevistas para que se mobilizem em prol de sua função precípua que é a de “salvar vidas”.

Salvar vidas…

Salvar

Vidas.

Essas palavras ecoaram aqui dentro. Na verdade, ainda ecoam. Fecho os olhos e lá está o eco… salvar vidas… salvar vidas… um letreiro piscando na mente.

E fico me perguntando, afinal de contas, o que é exatamente esse salvar? E de que vidas estão falando?

Salvar vidas… desde que me entendo por gente ouço as pessoas dizendo que a função primeira de um médico é salvar vidas.

Resolvi pesquisar.

Resolvi apelar para o juramento de Hipócrates e entender melhor o que é esse propósito quase poético dos médicos em sua missão de vida, pela vida e para a vida. O texto do juramento* fala sobre exercer a “arte de curar”. Tudo bem, digamos que haja de fato uma arte relacionada ao processo de cura, todo o mérito a quem se aplica a essa arte, mas antes de discutir a beleza da cura, vamos ao mérito da questão, que não é exatamente avaliar o que o médico faz ou mesmo se ele o faz. Acho que devíamos começar, antes, pela definição de cura, ou, para usar uma das minhas perguntas favoritas das primeiras aulas de física sobre cinemática: quando o professor perguntava se o objeto estava parado ou em movimento, os alunos nada diziam antes de rebater com outra pergunta: em relação a quê?

Então, lá vou eu aplicar meus parcos conhecimentos em física (nem que seja a prática de redundar em perguntas) na afirmação do juramento de Hipócrates que os médicos pretendem e cujas diretrizes prometem usar como esteio de sua jornada profissional: “curar”? Mas curar em relação a quê? Curar de que exatamente?

Será que só eu que percebo a multiplicidade de sentidos, ou a polissemia, que a palavra cura pode ter? E agora, num simples exercício de divagar com palavras sobre o que é curar, antes mesmo de consultar os livros (ou seja, palavras escritas por outras pessoas, como eu e você) para corroborar minha teoria, julgo válido defender no mínimo três ou quatro tipos de cura: a física, a emocional, a relacional e a individual. Isso sem citar a espiritual, já que esse aspecto nos atravessa e permeia todos os demais.

Para que esse exercício não se torne cansativo e você não me creia enfadonha, vamos de trás para frente: a cura individual, aquele equilíbrio que a pessoa deve ter consigo mesmo. A relação saudável que se tem quando se está em sua própria companhia sem precisar recorrer a mais nada. Se alguém não sentiu esse prazer pode ir logo marcando uma consulta, nem que seja com a própria consciência. A cura relacional é aquela necessária quando há algo de incômodo nas relações, e acabamos perpetrando essas ações-quase-criminosas com nossos relacionamentos, do mais íntimo ao mais superficial. Se há pequenas coisas a serem ditas pelo bem da relação, que sejam ditas, explicadas, choradas, lamentadas; do contrário, não haverá mais relação. E a beleza da dança relacional é esta: quanto mais a praticamos, mais associamos, mais ligamos os pontos existenciais, mais nos conectamos. Vale dizer que no mundo relacional nem todos o querem, nem todos querem relacionar, nem todos vão com a cara um do outro. E vida que segue, até porque não daria para todos se relacionarem com todos, não é mesmo? Pelo menos não ainda… Vamos à cura emocional. Qualquer que seja o seu entendimento de emoção, vou tentar dizer o que é para mim: tudo aquilo que tentamos transpor para o mundo das palavras e, no fim, sempre parece que tem algo faltando. Isto é emoção: o que nos faz sentir, o que nos fala peloS sentidoS. O que todos os sentidos nos falam jamais será traduzido por apenas um ou alguns deles. Se há algo de emocional que está desestabilizado, seriam necessários os sentimentos para nos conduzir a algum entendimento. Nada mais complicado do que falar sobre sentimentos e, ao mesmo tempo, nada mais terapêutico. Por fim, a última e mais simples de se definir é a cura física: algo que afeta o físico de forma que podemos descrever objetivamente e, portanto, o médico poderia prescrever objetivamente uma receita/tratamento com o remédio/procedimento adequado.

Agora, voltando ao juramento de Hipócrates, será que cabe somente ao médico exercer “a arte de curar”? Será que o médico usa, de fato, todos os seus recursos para cumprir esse juramento com fidelidade? Será que o médico me cura das minhas questões relacionais? Será que ele cura as minhas questões individuais? Que dirá das emocionais? Diria eu, em última instância, que nem mesmo a cura física lhe é lograda com sucesso absoluto… E começo a suspeitar que isso não seja um mero acaso, pois, se algo me afeta nas minhas relações, me afeta no corpo; se algo me afeta nas minhas emoções, me afeta no corpo. O corpo, em última instância, é a minha última instância, minha barreira final, meu limite exterior. O corpo é o encontro da minha pessoa complexa, feita de partes relevantes e intangíveis, com a matéria tangível que me constitui.

Por conseguinte, voltando à questão do mérito desse divagar, a cura, será que uma cura é mais urgente que a outra? Será que os pacientes são mais urgentes do que os próprios funcionários do hospital que provavelmente estão tão precisados de curas quanto os pacientes deste mesmo hospital?

Acho louvável a atitude em defesa da arte de curar! E me solidarizo com a premência da cura de um paciente ou de dez que sejam; daria todo o apoio necessário ao atendimento dos pacientes internados e carentes de cuidados médicos. Sou favorável a esse cuidado e respeito tão sagrados para com a vida do paciente. Mas antes de me render totalmente aos argumentos médicos pela urgência das vidas de seus pacientes, eu paro e reflito, primeiro, nas vidas no geral. O que faz uma pessoa tão sensível à dor de um doente no corpo e tão diametralmente insensível às dores dos funcionários em péssimas condições de trabalho, em situação de insolvência, que não têm recursos instrumentais e materiais para exercer o cuidado com o paciente, que às vezes sofrem tanto quanto o paciente de quem cuidam por saber que não tem aquele antibiótico para o tratamento ou aquele analgésico que tiraria a dor do seu paciente? O que torna a urgência do paciente mais urgente que a necessidade de um(a) chefe de família ter tranquilidade em saber que vai receber o salário do dia prometido, vai ter dinheiro para comer e dar de comer a seus filhos e cumprir suas demais obrigações como cidad(ã)o honesto(a)?

Uma questão de vida? E qual dos casos não o é?

Digam, por gentileza, o que torna uma cura mais relevante que a outra? E o que fazer quando uma doença emocional se transformar em uma doença física, comorbidades mais do que previstas pelas ciências da saúde??

Existe atitude mais cruel do que ter que escolher quem vive e quem morre? Há argumento que justifique uma escolha a outra? Eu não tenho resposta para essas perguntas.

Essa é a confissão #2. Não é só essa. Tem mais.

De todas as vezes em que fui curada, ou salva, por alguém, poucas vezes esse alguém foi um médico. Perdi as contas de pequenos gestos que me salvaram: um abraço que fez o tempo parar, cheio de vida e ternura, uma mensagem com carinho e admiração, uma ligação, um beijo, um olhar de cumplicidade, no qual se vivem pequenas eternidades… Uma palavra de incentivo, outra de reconhecimento. A simples companhia num dia triste. Um segurar de mãos. Um silêncio acolhedor. Uma conversa no bar, uma risada escancarada… Um pôr-do-sol do outro lado do mundo. Uma taça de vinho. Uma cerveja com ou sem tulipa. Até uma marchinha de carnaval!

Essa é mais uma confissão que tenho a fazer: o salvar vidas devia ser missão ou função precípua de todos os que desfrutam da condição de estar vivo, a condição de viver. Tal juramento tão profundo e inspirador perpassa toda e qualquer vida que atravessa a existência dos médicos, que fariam bem à dignidade se expandissem o título de paciente para as demais pessoas que o rodeiam. Um juramento tão digno como esse não devia estar reservado a apenas uma classe profissional, mas sim à classe dos seres humanos viventes e sobreviventes do risco de viver.

Essa é a confissão #3. Tem mais.

 

Viver é um evento cujo risco intrínseco lutamos diariamente para mitigar. E, na virada do dia, quando temos a quase-certeza de estar vencendo o risco da vez, lá vem a manhã para renovar suas forças e nos apresentar um novoRisco para nos encarar com vontade.

Isso tudo, queridas pessoas, me dá a consciência de que não estamos acordando para enfrentar mais um dia na labuta da vida. Estamos em clima de guerra. Guerra na qual mal sabemos definir ou distinguir nosso adversário… Ou, talvez, seja mais fácil do que se imagina. Talvez seja aquele que olhamos no espelho e imaginamos ser a pessoa mais importante da face da Terra – o nosso EGO. “Mas temos que cuidar primeiro de nós!” – dirá você. “Tem razão” – direi eu. Sim, creio legítimo esse direito, desde que a minha sobrevivência seja viável no coletivo, na sociedade, na associação e na relação com o Outro.

Do contrário, viveremos dia sim e dia não na luta permanente de não reconhecer o meu Eu no eu do Outro e, na tentativa última de sobreviver, cometer o suicídio social matando o Outro que vive em mim e matando a parte de MIm que vive no Outro.

Este, sim, seria um holocausto mais eficaz:

Pela minha necessidade legítima, primeira e primária de sobrevivência do meu EGO, mataria a minha essência que vive em todos, um a um.

Até que não sobre mais nenhum.

Até que não sobre

Nem

Eu.

Nem

Você.

Nem

Um.

Afinal#QueOutroSouEU?

 

Ao final desse texto-reflexão, percebo aqui, com meus botões… não tenho respostas… tenho confissões… tenho mais perguntas. Mais e mais perguntas.

Isso é a confissão #4. Tem mais.

Sempre tem.

 

(Inclusive, nesse exercício dialógico com uma prima-leitora-crítica, surgiu mais uma semente dentre os grãos desse debulhar existencial: no meio das tensões da vida e de buscas quase-utópicas pela cura, visto que o existir é polissêmico por si, “é bom lembrarmos que para a existência não há cura”. Sim, há dores que fazem parte do viver e sem as quais o existir seria demasiado simples, demasiado linear, demasiado controlável e previsível, ouso dizer. Isso seria só o prelúdio de mais uma confissão…

Até a próxima!)

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*O juramento de Hipócrates: https://pt.wikipedia.org/wiki/Juramento_de_Hip%C3%B3crates

Paulo R. Mattos, Médico Psicanalista. UFF.