Carta aberta às pessoas que magoei porque Mi separei

Esta é uma carta aberta.
Leia e distribua à vontade. Ou não.
Estou escrevendo da parte da Michelle que percebeu que muitas relações que tinha dependiam diretamente da minha relação com o matrimônio. Ou, para ser mais específica, percebeu que tinha relações de amizade que dependiam da pessoa com quem eu partilhava o matrimônio. (Ou do meu estado civil, vai saber…)

Vou começar por essa pessoa.
Ela, por quem nutro grande respeito, carinho e admiração, a quem desejo todo amor e felicidade do mundo, a quem eu chamo pai dos meus dois pedaços mais-que-preciosos. Essa pessoa que é um pai não só de nome e sobrenome, mas de vida e de convívio, de cuidado presente, e que, por desventuras da jornada, não partilha mais a mesma jornada que eu.

Foi dessa pessoa que me separei.
Esse foi o fato.
Mas isso não interessa para o assunto da vez.

O assunto é falar de amigos-cunhados, amigas-cunhadas, amigas-vizinhos, amigos… amigos-de-pão-e-vinho, amigos-pastores, amigos-conselheiros, amigos-parceiros, amigos-primos, amigas-primas, amigos-irmãos… aquela infinidade que a gente costuma chamar (por algum engano conceitual) de amigos…
Esses são os amigos que pensei ter, mas não os tenho.
Quiçá os tive.

E esta é a carta que escrevi para vocês para dizer que abri mão de estar casada com uma pessoa específica, não de todas as pessoas da rede que nos envolvia. Isso não significa que abri mão da comunhão das pessoas que quero bem como quero a meus irmãos de sangue. Não quer dizer que eu esteja rejeitando os meus irmãos de sangue.

Isso não significa abrir mão de abraços amigos e mensagens carinhosas de uma quase-família que pensei que tinha… de uma quase-avó que cuidei como se fosse a minha.
Isso não significa que não quero chamar irmã aquela, que apesar da cor, sempre Mi chamava de Nêga. Porque com ela eu tinha uma ligação de alma que me tornava tão preta quanto ela, tão mulher quanto ela e tão sincera em querer tê-la como a irmã que estava sempre perto.
Não significa também que não queira chamar de sobrinhos seus filhos queridos. Tampouco quer dizer que eu não ame como irmão aquele que meus filhos chamam de tio.

Estar separada, queridos-todOs-e-todAs, que querem saber da Mimi, não me torna uma desertora de nem uma outra relação. Na realidade, não me torna desertora de relação nenhuma. Eu abri mão do matrimônio que tinha com uma pessoa.

Talvez seja isto: o fato de Mi assumir desertora do matrimônio.

A parte disso que me torna diferente diz respeito a uma pessoa querida.
Não diz respeito ao fato de ela não ser uma pessoa querida, pois ainda quero bem a ela.

A parte disso que diz respeito a todas as outras pessoas queridas é: nenhuma.
Não mudei meu sentimento de carinho e respeito quanto às demais pessoas. Não disse que não queria mais um abraço amigo, um ombro companheiro, um par de ouvidos…

Não disse aos primos e tios que estava assinando a carta de divórcio, mas infelizmente, muitos se separaram da Mimi.

Circunstâncias mudam, a vida muda, a roda gira, a roda-vida da vida não para de rodar. E desde então, muitas águas desse rio passaram pelo gota da Mimi.

Sim, tudo mudou, todos mudaram.

Mas a Mimi lamenta que nesse ciclo de evaporação e condensação poucas partículas de oxigênio tenham se mantido presas ao hidrogênio da Mimi.

Ou seria o contrário?
O mundo quântico não se explica por um racional muito claro, eu sei…
Eu sei que talvez esse tenha sido o melhor resultado de todas as possibilidades de todos os cenários, exatamente por ele ser o real, o factual, o concreto.

Sei de tudo isso pela veia da razão.
Nem por isso eu ignoro a veia da emoção.
E a emoção sente falta de ser a pessoa querida para tantas pessoas ainda queridas para Mimi.

Talvez a gente seja isso…
Poeira espacial
no vento
no tempo
e nas galáxias.

Era só
Isso.
Era tudo
Isso.

Foi.
Fomos.
Fui.

a_poeira_e_o_vento

Essa música explica muito disso:

Poeira ao vento (Kansas)

Eu fecho meus olhos

Apenas por um momento
E o momento se foi
Todos os meus sonhos
Passam diante dos meus olhos, em curiosidade
Poeira no vento
Tudo o que somos é poeira no vento

A mesma velha música
Apenas uma gota de água em um mar infinito
Tudo o que fazemos
Desaba sobre a Terra, embora nos recusemos a ver

Poeira no vento
Tudo o que somos é poeira no vento

Agora, não espere
Nada dura para sempre, apenas o céu e a terra
Isto escapa
E todo o seu dinheiro não comprará outro minuto

Poeira no vento
Tudo o que somos é poeira no vento

Poeira no vento
Tudo é poeira no vento