[Somos todAs Bias]

naohouve1

Por toda forma de ser,
Por toda potência de ser,
Pela liberdade de poderSer
[Somos todAs Bias]
[Somos-tod-As-Bias]

Somos todas Bias
Quando assistimos com passividade
Tantas barbáries e maus-tratos em silêncio

Somos toda a Bia
Quando, desde cedo,
Vemos um homem gritar com uma mulher
E assentimos em silêncio

Somos a Bia toda
Quando ouvimos nosso pai dizer que “isso é coisa de menino”
E, logo, você não pode fazer, minha filhinha
E silenciosamente acreditamos

Todas somos a Bia
Quando chamam de puta, piranha e vadia
Uma mulher que mostra o corpo
Uns centímetros a mais do que diz o protocolo

Ou quando uma mulher competente
Ascende em sua profissão
Assume um cargo de gestão

Ou quando uma mulher não quer se casar
Ou não quer ter filhos
E fica bem como está

Somos Bia, Maria, Luzia
Quando aceitamos que uma prostituta
Seja diminuída
Quando, na verdade, a sua função existe
Historicamente para dar ao homem
Satisfação, uma ereção

Eu sou a Bia,
A irmã da Bia,
A mãe da Bia,

Sua avó e sua filha,

Que sente a dor excruciante ao ouvir (do meu irmão)
Que “Quem não se deu ao respeito não merece respeito”
Quando é que essa mania de vigilância/juízo da vida alheia vai passar??

Eu sou a Bia
Quando apanhei da minha mãe [literalmente]
Ao dizer que decidi me separar, pois [meu casamento] era algo em que não mais cria

E sou a amiga da Bia
Quando uma amiga me disse que foi expulsa de casa pela mãe
Ao falar sobre sua bissexualidade

Eu sou a Bia
Todas as vezes que me percebo,
E me identifico com a minoria [mesmo sabendo que somos a maioria]

A Bia somos todas
Que vamos à marcha das vadias
E que não somos só um belo rosto ou belo corpo
[mas somos Também]

Sim, sou a Bia
E quando Espinoza diz que afirmar a nossa potência,
É afirmar a divindade que existe em nós
Então, eu me pergunto, hoje e todos os dias,
O que eu posso ser?

O que nós podemos ser?
Podemos ser tudo que decidirmos ser
Se lutarmos para tanto

Hoje, podemos ser a Bia
Não só hoje, como todos os dias:

Somos,
divinamente,
potencialmente,
TODAS [e todos] A BIA

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Esse post foi publicado originalmente na minha página do Facebook, a respeito do tema Cristo e a Des-colonização dos corpos na IBCaminho, inspirado também pela carta do Jornal Extra: http://extra.globo.com/casos-de-policia/carta-do-extra-aos-leitores-que-nao-viram-um-estupro-no-estupro-19410619.html

Facebook:  https://www.facebook.com/mimimi.rossi

O m3do de Mi perd3r

Me apaixonei
Por tudo que não conhecia
E não me permitia
Pela vida que nunca vivia
Por pessoas que nunca conhecia
Pela dúvida que me acometia

Me separei
De tudo aquilo que não cria
De dogmas que me prendiam
De certezas que nunca tinha
De ritos que não reconhecia
Das opressões que me invadiam

Me encontrei
Na poeira da ventania
Na sujeira da pia
Nos desEncontros do dia a dia
Na letra de uma melodia
Na ordem que subvertia

Lutando contra a Ordem
Buscando uma ordem de outro tipo
De outra lógica

Me achei
E depois que a gente se enContra, a gente perde o medo de se perder.

Não tenho certeza do que quero, mas tenho muita certeza do que Não quero.

E posso dizer com clareza de mente e leveza de espírito e coerência de vida e transparência de sentidos:
Que venham os medos!
Porque deles não estamos livres, “jamais”, como dizem os franceses

“Mas estamos pra sempre livres do medo de nunca termos tentado, e não importa o destino.”
E essa, quem disse foi um amigo, que como eu, não teve medo de tentar, mesmo que isso implicasse em se perder…
É que eu
Não tenho esse medo:
O medo de Mi perd3r

: o começo [e o fim] de [quase] tudo :Comunicação:

Não, esse não é mais um-post-chato-e-cliché-sobre-comunicação. Ou, talvez até seja, mas se pudesse insistiria por só mais um-minuto-de-seu-precioso-tempo e, no fim, você avalia… e, por favor, comente =)

Eu estava lendo mais um post que achei incrível sobre a importância da comunicação. Post direto e resoluto sobre “aquilo tudo que já sabemos”, mas quase nunca fazemos sobre a importância de falar, e de fazê-lo de forma clara, consciente e não violenta.

Então resolvi escrever um pouco sobre isso e, compartilhando, acredito que isso acaba ajudando alguém mais e criando uma discussão saudável sobre o assunto.

Muito se fala sobre comunicação (e olha eu aqui, falando de quem fala sobre comunicação, achando que falo melhor… tá, dá um desconto, vai… rs). E depois de consultar meus botões, com quem falo muito e com frequência, acho válido refletir em alguns pontos antes de construir algo que valha a pena, ou o dedo, ou a voz para comunicar:

Já sabemos que comunicação é a expressão de alguma mensagem entre interlocutores.

Certo. (Ou quase isso)

Mas… Vamos voltar um pouco antes: que tal refletir sobre O QUE se deve/pode comunicar: qualquer coisa? todas as coisas? uma coisa de cada vez? uma coisa por semana? enfim, há muitas e infinitas coisas para serem comunicadas, e é isso mesmo: quero chamar a atenção para o fato de que devemos pensar, antes, em O QUE desejamos expressar antes de fazer alguma inserção no mundo das palavras, das vozes e das expressões no geral. Parece óbvio, mas não é.

E, também, POR QUE comunicar? Só porque eu quero? Ok, isso é um motivo legítimo. Então, vamos explicar, destrinchar, desmontar melhor essa motivação antes que pareça ser algo que você não está exatamente intencionando, mas pode acabar parecendo que falou porque “quer se mostrar”, porque “quer se intrometer”, porque “quer ser do contra” ou por qualquer outro motivo que não seja o seu MOTIVO ORIGINAL.

Vale pensar em PRA QUEM você vai comunicar, pois isso muda o COMO e QUANDO você o fará.

Há pessoas pelas quais e com as quais vale se comunicar: amigos, família, amores, enfim, PESSOAS que IMPORTAM na sua vida… – e aqui cabe uma grande reticência que só vai ser preenchida por você. E. claro, se você vive de alguma forma em função de se comunicar ou de viabilizar a comunicação, é importante sempre uma reflexão sobre as melhores formas de se conectar com o seu público, de modo que a gerar uma comunicação efetiva e não só mais um “blá, blá, blá”. Além disso, esse público definirá as demais partes da comunicação, ou seja, os próximos itens desse texto.

Depois de pensar em QUEM será o alvo de sua comunicação, vamos pensar em COMO: pode ser uma comunicação escrita, pode ser uma exposição oral, pode ser uma apresentação em um slide, pode ser um desenho em um papel, um gesto, uma expressão, um buquê de flores, um origami. Sejamos criativos! O COMO é praticamente infinito. Convido vocês a exercitar o como e depois, quem sabe, não se pode compartilhar com a gente nos comentários?

Agora, a questão do tempo: já que o tempo não para, como dizia Cazuza, há coisas que devemos dizer o quanto antes. Há, porém, algumas que ficam melhor se planejadas e pensadas previamente. O QUANDO certamente será afetado pelo ONDE e provavelmente afetará o COMO. Sugiro considerar como um tripé COMO-QUANDO-ONDE (C-Q-O): eles são irmãos trigêmeos siameses (se é que isso existe!). Logo, não faz sentido algum pensar em um sem ponderar os demais. Já que isso não é exatamente uma receita de bolo, nem pretende ser, vale lembrar que o contexto sempre fará toda a diferença nos resultados do comunicar. Isso é o elemento essencial para essa tríade siamesa: mexer em um (como/quando/onde) significa mexer em todos de uma só vez.

Aqui chegamos ao final desse troca-troca de experiências (sim, só eu troquei, mas tenho fé no segundo “troca” rs). Ponderar esses fatos antes de falar (no sentido lato) é crucial para toda forma de comunicar. Mencionar tudo isso não seria proveitoso sem considerar que a medida de cada elemento no processo depende de um pouco de reflexão e de ação. Pensar antes de comunicar. Parece óbvio, mas não é. A proposta é essa: refletir sobre o comunicar. Pense no que você pretende com a comunicação e, se no fim, você perceber que não sabe exatamente o que quer falar, ou o que deseja alcançar, não fale. Você pode estar fazendo um grande favor a si mesmo, e ainda vai causar uma boa impressão: tem um provérbio de um rei sábio que diz que “até o tolo, quando calado, parece sábio”.

No fim das contas, parece que eu acabei falando, falando, pra concluir o que um provérbio milenar já diz e ecoa até os nossos dias: o falar nada tem a ver com saber. É exatamente o contrário.

Não, esse não é o fim, mas pode ser o começo de [quase] tudo.

Vamos pensar antes de comunicar?

[Pessoal, vamos trocar ideias sobre o assunto? A comunicação é um tema infinitamente rico e por isso me apaixona! Comentaí!]

Su~mente [100] Sentido(s) [?]

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A língua é um padrão
(ou devia ser)
Ela é um conSenso
[ou tenta ser]

O Comunicar vai além
ele tem Asas
Não tem princípio nem fiM
E, por princípio,
pode ter um fiM
em Si
Por Si

o Meu comunicar
Não obedece
asssim,
só por obedeSer

nãO sigo um padrão
só por seguIr

tenho o Meu subPadrão
a MiNha subVersāo
Eu-sou o Meu
padrão

O pontinho des-tô-ante
na multidão

A língua e Eu
Somos parceiras
E também
Companheiras

Trabalhamos:
Às vezes juntas
E, às vezes,
Cada uma à sua maneira

Ela tem seu padrão
e Eu, o mEu

Meu sentido
MInha forma
MInha língua

Nem sempre obedeço à língua
Ela Mi obedece
Nem sempre sirvo À Língua
ela, por vezes, mi s3rv3
E, outras, não serve

um Sentido de Ser
nUM MUndo 100sentido
Um mUNdo de Cem-sentidos
Que não sente

Nada em MIm
Eh por acaso
[é (quase)Tudo]
Uma
INdispretensa
desPretensão
Uma
meTIculosa
planejada,
Curiosa
, provoCada
Provoc-Ação

😉

 

{A Palavra-que-sou-SEMpalavras}

actuar_para_ser

Palavra:

Nela nossa incompletude

nossa potência de ser

Nela nossa liberdade

nossa não realidade

 

Nela nossa fugaz sensação de voo

Sensação de transcendência

Nela transpomos eras, tempos,

Pessoas e lugares,

Transpomos a(s) existência(s)

 

Nela abstraímos, saímos de nós

Estamos no outro

Estamos no sentido

 

Por ela [também] sentimos

 

Por ela nos encontramos, nos refletimos:

No outro, em nós mesmos – ECOamos na existência

E eis AQUI, A PALAVRA

que dizem faLAR por Mim:

 

A beleza [e a feiura] – que COhabitam

A sensível sensibil-idade, sensibilIDADE

Mestre (?) – Oxalá… talvez, algum dia

 

Menina-mulher-Irmã,

proFunda profundIDADE

Olhos-sempre-virgens

Luz-e-brilho – e as sombras enVolvidas

 

Wendy-ÚNIca

Coragem para Ser-OUTRAS

 

Forte-leve-doce-direta

Verdade, Simpatia – mas aviso, também arredia

Simplicidade, sutileza, sorriso  🙂

 

Envolvimento-Atuante

NovIDADE – nova-IDADE

 

Fofa Fofura – ^.^ –

{Com gosto} gostosa gostosura – Oops, olha a censura!

[Olha a VAIdade]

 

Pronta-pra-desvendar-o-mundo

Ávida por mergulhar em outros mundos

E nos Mundos-dos-Outros

 

A “palavra” que sou,

A poesia que quero ser

Tudo isso que habita-reflete

No meu Perseverante-quase-Ser

 

Por fIM [e até o meu Fim]:

{A Palavra-que-sou-SEMpalavras}

Ainda [há-braços]

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ainda há-braços para dar
ainda há-mor para-mar
uniVersos pra explorar

ainda há mistérios para des-vendar
há-inda véus para t-Irar
respostas para dar

desculpas para des-culpar
há nós para des-atar
caminhos para caminhar

há-inda:
nós para precisar
nós para confessar
nós para amar
nós par-a-parar

ainda há nós 🙂
que venham m-Ais:
Anos
para-braçar

mesmo com medo,
poder há-braçar
mesmo com medo,
poder conFÉssar

poder pre-cisar

Enquanto
há-inda-braços
para des-armar

hÁ-inda
ha-verá
vontade para conTInuar

sem im-Por
sem o-Brigar

mesmo que h-Aja
o brigar

que não falte
[o-há-braço]

que não falte
[o-hÁ-mar]

Afinal#QoutroSouEu?

blog130

Tenho uma confissão a fazer. Trabalho num hospital há quase quatro anos, e pouca coisa no âmbito profissional me proporcionou mais orgulho e prazer. E olha que não sou médica e não trabalho na assistência ao doente, ao menos não de forma direta.

Ocorre que diante dessa falência múltipla dos órgãos do governo do Estado do Rio de Janeiro, esse hospital onde trabalho está à beira da falência, a exemplo de sua unidade federativa. Reações ocorrem de todas as formas e para todos os gostos: audiência pública, manifestações, apelos na mídia e nas redes sociais ― leia-se Facebook e Twitter. Há também os que se manifestam por meio do direito constitucional à greve. Eu, porém, com essa minha mania de pensar, tenho tido grandes dúvidas existenciais e morais com relação à adesão ou não à greve. Em virtude, principalmente do meu amor pelo hospital e pela sua importância no contexto de saúde pública, tenho relutado bravamente com a ideia (ainda que simbólica) de protestar por meio da greve. Com algumas ajudas aqui e perguntas ali, o que tenho feito nos últimos dias é participar mais ativamente nas reuniões, plenárias e assembleias e entender melhor como se dá esse movimento. E sim, aderi à greve de forma parcial.  

Essa é a confissão #1. Não é só essa. Tem mais.

A minha surpresa, porém, foi perceber a atitude reacionária de alguns médicos com os quais trabalho. Médicos esses que defendem com unhas e dentes o direito de operar seus pacientes e dar seguimento aos tratamentos, fazendo, portanto, apelo aos grevistas para que se mobilizem em prol de sua função precípua que é a de “salvar vidas”.

Salvar vidas…

Salvar

Vidas.

Essas palavras ecoaram aqui dentro. Na verdade, ainda ecoam. Fecho os olhos e lá está o eco… salvar vidas… salvar vidas… um letreiro piscando na mente.

E fico me perguntando, afinal de contas, o que é exatamente esse salvar? E de que vidas estão falando?

Salvar vidas… desde que me entendo por gente ouço as pessoas dizendo que a função primeira de um médico é salvar vidas.

Resolvi pesquisar.

Resolvi apelar para o juramento de Hipócrates e entender melhor o que é esse propósito quase poético dos médicos em sua missão de vida, pela vida e para a vida. O texto do juramento* fala sobre exercer a “arte de curar”. Tudo bem, digamos que haja de fato uma arte relacionada ao processo de cura, todo o mérito a quem se aplica a essa arte, mas antes de discutir a beleza da cura, vamos ao mérito da questão, que não é exatamente avaliar o que o médico faz ou mesmo se ele o faz. Acho que devíamos começar, antes, pela definição de cura, ou, para usar uma das minhas perguntas favoritas das primeiras aulas de física sobre cinemática: quando o professor perguntava se o objeto estava parado ou em movimento, os alunos nada diziam antes de rebater com outra pergunta: em relação a quê?

Então, lá vou eu aplicar meus parcos conhecimentos em física (nem que seja a prática de redundar em perguntas) na afirmação do juramento de Hipócrates que os médicos pretendem e cujas diretrizes prometem usar como esteio de sua jornada profissional: “curar”? Mas curar em relação a quê? Curar de que exatamente?

Será que só eu que percebo a multiplicidade de sentidos, ou a polissemia, que a palavra cura pode ter? E agora, num simples exercício de divagar com palavras sobre o que é curar, antes mesmo de consultar os livros (ou seja, palavras escritas por outras pessoas, como eu e você) para corroborar minha teoria, julgo válido defender no mínimo três ou quatro tipos de cura: a física, a emocional, a relacional e a individual. Isso sem citar a espiritual, já que esse aspecto nos atravessa e permeia todos os demais.

Para que esse exercício não se torne cansativo e você não me creia enfadonha, vamos de trás para frente: a cura individual, aquele equilíbrio que a pessoa deve ter consigo mesmo. A relação saudável que se tem quando se está em sua própria companhia sem precisar recorrer a mais nada. Se alguém não sentiu esse prazer pode ir logo marcando uma consulta, nem que seja com a própria consciência. A cura relacional é aquela necessária quando há algo de incômodo nas relações, e acabamos perpetrando essas ações-quase-criminosas com nossos relacionamentos, do mais íntimo ao mais superficial. Se há pequenas coisas a serem ditas pelo bem da relação, que sejam ditas, explicadas, choradas, lamentadas; do contrário, não haverá mais relação. E a beleza da dança relacional é esta: quanto mais a praticamos, mais associamos, mais ligamos os pontos existenciais, mais nos conectamos. Vale dizer que no mundo relacional nem todos o querem, nem todos querem relacionar, nem todos vão com a cara um do outro. E vida que segue, até porque não daria para todos se relacionarem com todos, não é mesmo? Pelo menos não ainda… Vamos à cura emocional. Qualquer que seja o seu entendimento de emoção, vou tentar dizer o que é para mim: tudo aquilo que tentamos transpor para o mundo das palavras e, no fim, sempre parece que tem algo faltando. Isto é emoção: o que nos faz sentir, o que nos fala peloS sentidoS. O que todos os sentidos nos falam jamais será traduzido por apenas um ou alguns deles. Se há algo de emocional que está desestabilizado, seriam necessários os sentimentos para nos conduzir a algum entendimento. Nada mais complicado do que falar sobre sentimentos e, ao mesmo tempo, nada mais terapêutico. Por fim, a última e mais simples de se definir é a cura física: algo que afeta o físico de forma que podemos descrever objetivamente e, portanto, o médico poderia prescrever objetivamente uma receita/tratamento com o remédio/procedimento adequado.

Agora, voltando ao juramento de Hipócrates, será que cabe somente ao médico exercer “a arte de curar”? Será que o médico usa, de fato, todos os seus recursos para cumprir esse juramento com fidelidade? Será que o médico me cura das minhas questões relacionais? Será que ele cura as minhas questões individuais? Que dirá das emocionais? Diria eu, em última instância, que nem mesmo a cura física lhe é lograda com sucesso absoluto… E começo a suspeitar que isso não seja um mero acaso, pois, se algo me afeta nas minhas relações, me afeta no corpo; se algo me afeta nas minhas emoções, me afeta no corpo. O corpo, em última instância, é a minha última instância, minha barreira final, meu limite exterior. O corpo é o encontro da minha pessoa complexa, feita de partes relevantes e intangíveis, com a matéria tangível que me constitui.

Por conseguinte, voltando à questão do mérito desse divagar, a cura, será que uma cura é mais urgente que a outra? Será que os pacientes são mais urgentes do que os próprios funcionários do hospital que provavelmente estão tão precisados de curas quanto os pacientes deste mesmo hospital?

Acho louvável a atitude em defesa da arte de curar! E me solidarizo com a premência da cura de um paciente ou de dez que sejam; daria todo o apoio necessário ao atendimento dos pacientes internados e carentes de cuidados médicos. Sou favorável a esse cuidado e respeito tão sagrados para com a vida do paciente. Mas antes de me render totalmente aos argumentos médicos pela urgência das vidas de seus pacientes, eu paro e reflito, primeiro, nas vidas no geral. O que faz uma pessoa tão sensível à dor de um doente no corpo e tão diametralmente insensível às dores dos funcionários em péssimas condições de trabalho, em situação de insolvência, que não têm recursos instrumentais e materiais para exercer o cuidado com o paciente, que às vezes sofrem tanto quanto o paciente de quem cuidam por saber que não tem aquele antibiótico para o tratamento ou aquele analgésico que tiraria a dor do seu paciente? O que torna a urgência do paciente mais urgente que a necessidade de um(a) chefe de família ter tranquilidade em saber que vai receber o salário do dia prometido, vai ter dinheiro para comer e dar de comer a seus filhos e cumprir suas demais obrigações como cidad(ã)o honesto(a)?

Uma questão de vida? E qual dos casos não o é?

Digam, por gentileza, o que torna uma cura mais relevante que a outra? E o que fazer quando uma doença emocional se transformar em uma doença física, comorbidades mais do que previstas pelas ciências da saúde??

Existe atitude mais cruel do que ter que escolher quem vive e quem morre? Há argumento que justifique uma escolha a outra? Eu não tenho resposta para essas perguntas.

Essa é a confissão #2. Não é só essa. Tem mais.

De todas as vezes em que fui curada, ou salva, por alguém, poucas vezes esse alguém foi um médico. Perdi as contas de pequenos gestos que me salvaram: um abraço que fez o tempo parar, cheio de vida e ternura, uma mensagem com carinho e admiração, uma ligação, um beijo, um olhar de cumplicidade, no qual se vivem pequenas eternidades… Uma palavra de incentivo, outra de reconhecimento. A simples companhia num dia triste. Um segurar de mãos. Um silêncio acolhedor. Uma conversa no bar, uma risada escancarada… Um pôr-do-sol do outro lado do mundo. Uma taça de vinho. Uma cerveja com ou sem tulipa. Até uma marchinha de carnaval!

Essa é mais uma confissão que tenho a fazer: o salvar vidas devia ser missão ou função precípua de todos os que desfrutam da condição de estar vivo, a condição de viver. Tal juramento tão profundo e inspirador perpassa toda e qualquer vida que atravessa a existência dos médicos, que fariam bem à dignidade se expandissem o título de paciente para as demais pessoas que o rodeiam. Um juramento tão digno como esse não devia estar reservado a apenas uma classe profissional, mas sim à classe dos seres humanos viventes e sobreviventes do risco de viver.

Essa é a confissão #3. Tem mais.

 

Viver é um evento cujo risco intrínseco lutamos diariamente para mitigar. E, na virada do dia, quando temos a quase-certeza de estar vencendo o risco da vez, lá vem a manhã para renovar suas forças e nos apresentar um novoRisco para nos encarar com vontade.

Isso tudo, queridas pessoas, me dá a consciência de que não estamos acordando para enfrentar mais um dia na labuta da vida. Estamos em clima de guerra. Guerra na qual mal sabemos definir ou distinguir nosso adversário… Ou, talvez, seja mais fácil do que se imagina. Talvez seja aquele que olhamos no espelho e imaginamos ser a pessoa mais importante da face da Terra – o nosso EGO. “Mas temos que cuidar primeiro de nós!” – dirá você. “Tem razão” – direi eu. Sim, creio legítimo esse direito, desde que a minha sobrevivência seja viável no coletivo, na sociedade, na associação e na relação com o Outro.

Do contrário, viveremos dia sim e dia não na luta permanente de não reconhecer o meu Eu no eu do Outro e, na tentativa última de sobreviver, cometer o suicídio social matando o Outro que vive em mim e matando a parte de MIm que vive no Outro.

Este, sim, seria um holocausto mais eficaz:

Pela minha necessidade legítima, primeira e primária de sobrevivência do meu EGO, mataria a minha essência que vive em todos, um a um.

Até que não sobre mais nenhum.

Até que não sobre

Nem

Eu.

Nem

Você.

Nem

Um.

Afinal#QueOutroSouEU?

 

Ao final desse texto-reflexão, percebo aqui, com meus botões… não tenho respostas… tenho confissões… tenho mais perguntas. Mais e mais perguntas.

Isso é a confissão #4. Tem mais.

Sempre tem.

 

(Inclusive, nesse exercício dialógico com uma prima-leitora-crítica, surgiu mais uma semente dentre os grãos desse debulhar existencial: no meio das tensões da vida e de buscas quase-utópicas pela cura, visto que o existir é polissêmico por si, “é bom lembrarmos que para a existência não há cura”. Sim, há dores que fazem parte do viver e sem as quais o existir seria demasiado simples, demasiado linear, demasiado controlável e previsível, ouso dizer. Isso seria só o prelúdio de mais uma confissão…

Até a próxima!)

———————————

*O juramento de Hipócrates: https://pt.wikipedia.org/wiki/Juramento_de_Hip%C3%B3crates

Paulo R. Mattos, Médico Psicanalista. UFF.

]O fim do ReComeço]

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Todo fim é um começo

Todo começo é um eterno fim

Viver é um recomeço sem-fim
Um recomeço com fim
Todo aprender é um eterno reaprender
Viver é romper
Todo escrever é sempre um acontecer

Em um dos universos que há

A palavra falada, escrita,
É o que houve
É o que há

Entre a palavra e a ação

Dentro da palavra há ação

Há realização no simples gesto de expressar
Todo comunicar está prenho de uma ideia
Concebida na mente
Gerada do útero das letras

Nascida das entranhas da palavra

Um sintagma,
Um termo carregado de sentido
Um sentido que é sentido, ouvido, percebido
E que pode ou não se converter em ação
E que certamente ao tomar forma de som
[som de todo Tipo

Tipos que simbolizam sons]

Já virou afetAção
No universo das palavras
Concretas
Ditas

Expressas

Essa ideia
Pequena semente,
Já é real ação
Portanto,

RealizAção

Seja o começo do fim
Seja o fim do ReComeço
Todo começo é um fim
Com um fim em Si
Um fim em Mi

O que Faz um Lar

O que faz um lar

Um lar se faz de paredes e móveis
Cômodos e tábuas
Cortinas e quadros

Hum… talvez seja isso
Mas por certo
Não é “só” isso

Um lar é feito de abraços
Feito de um olhar bondoso
Um escutar atencioso

Um lar
É feito de cheiros
E de sabores
Feito de Lilis
E de Rosas

Um lar é feito de risos
Muitos risos,
Na verdade, de muitas gargalhadas
Aquelas bem infantis
Que contagiam
Até o mais ranzinza de alma

Um lar também é feito de choro
Mas isso também é bom
Pra lavar a alma
E elevar o espírito

Um lar se faz
Até com lições sobre
Algoritmo
(Quem diria?)
E muitas outras lições
Sobre a vida

Um lar é feito de passos apressados no corredor
Acompanhados de gritos:
“Não corram, crianças!”
Ou
“Cadê o chinelo, dona Clara?”

É feito de
Muitos bailes de princesas…
Bolos e lanches,
Rastros de bebês enGatinhando,
Linas, Alices e Claras…
E música alta até dar “a hora de criança dormir”

Tem lar
Que se faz
Com sopas… às segundas e quartas
Frutas… às terças e quintas
(Para os mais exigentes rs)
E pizzas às sextas
(Ebaaaa!! Venham, crianças!!)
E vinho também
(Suco de uva pras crianças :D)

Mas lar mesmo
É a gente que faz

É o que se faz
Com gente
Gente que só é gente
Porque se importa com A gente

Esse gesto de Gente
Me ensinou
Um pouco mais sobre
“O que faz um lar”

Um lar
É aquele lugar
Que quando a gente está
É sempre bom ficar
E quando a gente sai
É sempre bom voltar

Obrigada por fazer deste
Um lugar que eu também
Posso chamar de Lar

E que eu vou LevAR
Em cada
Lar
Por onde
Passar

E que eu vou levar
Para o meu
DoceLar

Onde eu vou guardar
Com a doce lembrança
De vocês:
Queridos tiosAmigos-de-lar
/ \
|_|

Escrevo pra quê?

Eu escrevo pra deixar a alma respirar
Deixar os pensamentos que estavam vagando pelo ar
Se transformarem em palavras
E tentar fazer algum sentido
Com os sentimentos sem sentido

Escrevo pra descansar a mente
Deixar a alma transparente
Falar das coisas que confundem
Coisas que ninguém ousaria dizer aparente

Escrevo pra descarregar os fardos
Jogo as palavras como dardos
Não para acertar alguém
Mas somente pra parar de acertar
O lado de dentro, essa terra de ninguém
Pra parar de andar em uma trajetória irregular e dar fim ao meu tormento

Às vezes são tantas palavras
Que se debatem
Com tanto vigor nesse embate
Que a energia é suficiente pra parti-las em várias pequenas partes
E transbordar em pequenas artes

Sementes que frutificam
Sementes que modificam
Sementes que complicam

Tomara que por fim,
Essa sementes também
Modifiquem o lado de fora
Tanto quanto o lado de dentro
E aliviem a alma desse interminável tormento
Que eu sinto neste exato momento